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Arqueologia e Sítios Arqueológicos

De todos os elementos que compõe a natureza e que precisamos para sobreviver, o mais fundamental é a água, sem a qual nenhuma forma de vida é possível.

Em qualquer época e em qualquer lugar, homens e mulheres das mais diferentes culturas sempre precisaram estar próximos das fontes de água, onde pescavam, caçavam e encontravam solos férteis para cultivar.

 

Além de ofertar água e comida, os rios e mares são as mais antigas e importantes vias de deslocamento territorial, algo fundamental para que grupos humanos possam explorar e ocupar territórios amplos.

Em torno dos rios, os povos mais antigos também encontravam rochas de boa qualidade, que eram lascadas e transformadas em diversos tipos de ferramentas, como machados, facas e lanças. Também era das margens dos rios e lagos que nossos antepassados coletavam a argila, com a qual confeccionavam os mais diferentes tipos de potes e vasilhas, utilizados para cozinhar e para armazenar líquidos, grãos e farinhas.

Como podemos perceber, viver perto da água sempre foi uma boa escolha. Esses locais possuem recursos preciosos e em grandes quantidades, por isso, sempre foram ocupados e explorados pelos seres humanos, desde os tempos mais antigos, há milênios atrás. Por esse motivo, é muito comum encontrar nesses lugares pistas e vestígios materiais da presença de antigos povos.

 

MAPA: Sítios Arqueológicos do Rio Grande do Sul

Observe bem o mapa ao lado e veja como existem sítios arqueológicos em todas as regiões do Rio Grande do Sul, mas principalmente nas proximidades dos rios, lagoas, praias e áreas sujeitas a alagamento, como várzeas e banhados.

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Lembre-se, então, que nos lugares onde hoje se encontram plantações de arroz, de soja e pastagens que alimentam o gado e os cavalos, onde se fazem roças de hortaliças, onde vivem famílias e foram formadas vilas e cidades, já pisaram, há muitos anos atrás, pequenos grupos humanos em busca de água, caça, pesca e coleta de frutos. ​​Na beira de lagoas e de outros tipos de áreas alagadiças, que se enchem durante os períodos chuvosos, muitos animais vinham tomar água. Nossos antepassados aproveitavam esses momentos em que os animais se aproximavam para caçá-los. Sabemos disso porque encontramos objetos muito antigos que foram fabricados, perdidos ou deixados nas margens desses locais.

 

Mas, que objetos são esses? Existem diversos tipos de vestígios arqueológicos. Nos sítios arqueológicos mais antigos do  Brasil, chamados de sítios "pré-coloniais" (anteriores a colonização europeia, iniciada em 1.500 d.C),  existem dois tipos de vestígio que são encontrados com muita frequência: os vestígios líticos (feitos de pedra lascada ou polida) e os vestígios cerâmicos (feitos de argila cozida).

Antes de falarmos sobre os vestígios líticos e cerâmicos, é importante destacar que muitos objetos não resistem a ação da natureza e acabam "desaparecendo" com o passar do tempo. Este é o caso dos objetos feitos de madeira, ossos, fibras vegetais e sementes, como exemplificado nas fotos ao lado. O tempo que um objeto leva para se deteriorar depende muito das condições geográficas: em certos lugares, como grutas e cavernas, por exemplo, os objetos ficam conservados por muito mais tempo, pois ficam mais protegidos da ação dos ventos, das chuvas e do sol. Nesses lugares, então, é mais comum encontrar objetos mais antigos ou objetos mais frágeis, que em outros ambientes já teriam se deteriorado.

Rede indígena
Adorno
Cesto
Cesto
Adorno
Cesto
Flauta
Casa Xinguana
Casa Xinguana
 Representação de um grupo caçador-coletor

 vestígios líticos 

Esse tipo de vestígio é associado aos povos mais antigos que já habitaram nosso continente, os chamados "povos caçadores-coletores-pescadores". Esses grupos viveram em um momento anterior ao desenvolvimento da agricultura, entre 2.000 e 20.000 anos atrás, e possuíam uma alimentação baseada na caça, na pesca, na coleta de frutos, castanhas, raízes e mel.

 

Os caçadores-coletores eram povos nômades ou semi-nômades, ou seja, eram grupos que precisavam se movimentar e se deslocar com muita frequência, explorando amplos territórios em busca de recursos. Como a disponibilidade da maior parte dos recursos alimentares fornecidos pela natureza varia durante as estações do ano (inverno, verão, etc.), estes grupos tinham que se deslocar, de tempos em tempos, para explorar ambientes diferentes, impedindo que eles ficassem habitando um único lugar, como fazemos hoje em dia.

Os principais vestígios arqueológicos deixados pelos povos caçadores-coletores são os materiais líticos e as pinturas rupestres, já que os objetos feitos de madeira, ossos e fibras vegetais, na maior parte dos casos, acaba se deteriorando com  o passar do tempo.

Nos sítios arqueológicos que possuem vestígios líticos, geralmente são encontrados tanto as ferramentas de pedra lascada, como as diversas lascas de pedra produzidas durante o processo de lascamento. Com a técnica do lascamento esses povos produziam diversos objetos: pontas de flecha e de lança para caçar; facas e outros objetos cortantes para preparar alimentos, descarnar animais, etc.; machados de diferentes tipos para abrir a mata e para construir estruturas de madeira; além de diversas ferramentas de carpintaria.

 

Nas fotos ao lado você pode ver diversos instrumentos líticos  encontrados em sítios arqueológicos do Rio Grande do Sul.

Se você tem curiosidade de saber como é a produção de uma ferramenta de pedra lascada, clique aqui para ver a simulação da produção de um raspador bifacial.

vestígios CERÂMICOS

Esse tipo de vestígio é associado a um período mais recente da história, iniciado a aproximadamente 2.500 anos atrás. Neste período, diversos povos que habitavam o Brasil começaram a dominar, de maneira mais profunda, a técnica de domesticar plantas. A mais relevante delas foi a mandioca, uma poderosa fonte de carboidrato, que é facilmente cultivada e que também pode ser armazenada em grandes quantidades e com relativa facilidade. Com o desenvolvimento da agricultura, a caça, a pesca e a coleta continuaram sendo intensamente praticada. A principal alteração no modo de vida desses povos, ocorrida com o desenvolvimento da agricultura de subsistência, foi a sedentarização (fim do nomadismo), que deu mais estabilidade para esses grupos, permitindo o desenvolvimento de uma rede de aldeias mais estáveis e maiores.

Os principais vestígios arqueológicos deixados por esses grupos são os fragmentos de materiais cerâmicos. Além da agricultura, esses diferentes povos desenvolveram a técnica cerâmica (modelar e cozinhar argila), a partir da qual produziam diversos tipos de objetos, mas principalmente potes e vasilhas usados para armazenar (líquidos, comidas, objetos, etc.) ou para preparar e  cozinhar alimentos. Por isso, esses grupos são chamados de "povos horticultores-ceramistas".

Como os objetos cerâmicos quebram com facilidade, geralmente os pesquisadores encontram esses objetos todos despedaçados, em forma de cacos. Com o tamanho e formato de alguns cacos, os estudiosos conseguem descobrir a forma original do objeto e sua função. Muitas vezes, os cacos de cerâmica possuem restos alimentares incrustados, que podem revelar dados sobre a alimentação do grupo.

 

Dependendo da quantidade de cacos e das suas características também é possível estimar o que havia naquele local: se era um aldeia, um acampamento temporário, um local de produção de cerâmica, um local de descarte de objetos (lixeira), ou mesmo um cemitério, já que muitos grupos enterravam seus mortos em potes de barro. Outro dado muito importante para os estudiosos é a decoração desses objetos, ou seja, como ele foi pintado e estilizado, já que grupos de diferentes culturas imprimiam nesses objetos estilos e pinturas específicas da sua etnia. Com esses dados, os pesquisadores consegue saber qual grupo habitou aquele determinado lugar.

Se você tem curiosidade de saber como é feita uma vasilha cerâmica indígena, clique aqui para ver a produção de uma cerâmica do povo Assurini.

Os principais vestígios arqueológicos encontrados nos sítios pré-coloniais (anteriores a colonização europeia, iniciada no ano 1.500 d.C) são os materiais líticos e cerâmicos, mas existem outros tipos de materiais que podem ser encontrados nesses sítios, como conchas, ossos e sementes, além das pinturas e gravuras rupestres. Outro vestígio arqueológico importantíssimo é a fogueira porque através do carvão é possível descobrir com muita precisão a data deste vestígio. Para entender como funciona o principal método de datação utilizado atualmente pelos pesquisadores, assista o vídeo ao lado. 

Agora que nós já sabemos quais são os vestígios encontrados nos sítios "pré-coloniais", vamos falar sobre os vestígios arqueológicos mais recentes, que remetem ao período histórico iniciado com a invasão dos europeus ao atual território brasileiro, a partir do ano 1.500 d.C.

Quando os europeus desembarcaram no litoral brasileiro e começaram a explorar as riquezas daqui, eles trouxeram em suas bagagens diversos utensílios novos: frascos de remédio e de perfume, moedas, armas de fogo, talheres, pratos, jarros, arado, foice, machado, martelo, etc.

Esses diversos objetos eram feitos com materiais que não eram produzidos pelos indígenas, como o vidro, a louça, a porcelana e o metal. Por isso, sempre que os pesquisadores encontram nos sítios arqueológicos objetos feitos com esses materiais, eles sabem que aqueles objetos estão ligados ao período colonial. Os indígenas incorporaram esses materiais ao seu cotidiano com muita rapidez, por isso, esse tipo de objeto não é encontrado apenas em sítios relacionados aos colonizadores, mas também em sítios associados às ocupações indígenas.

Nas fotos abaixo você pode ver diversos vestígios históricos encontrados no Sítio Arqueológico Curral das Figueiras (RS).

como os seres humanos chegaram na AMÉRICA?

como os seres humanos chegaram ao rio grande do sul?

CAÇADORES-COLETORES

"A PRIMEIRA ONDA MIGRATÓRIA chega ao Rio Grande do Sul por volta de 12.000 A.P. sendo representada por grupos de caçadores e coletores que vivam em pequenos bandos dispersos por diversas áreas. Inicialmente a ocupação restringe-se ao oeste gaúcho, mas com o tempo e conforme mudanças climáticas alteravam o clima, a fauna e a flora do estado, outras regiões tornaram-se atrativas. Assim, a partir de 10.000 A.P., os grupos que se encontravam exclusivamente sobre as imediações do rio Uruguai e seus afluentes têm a sua disposição toda a imensidão pampiana. Nessa época, seguindo o curso dos grandes rios, passaram a habitar os abrigos sob rocha da encosta do planalto, sendo que por volta de 6.000 A.P. começam a habitar os campos de cima da serra e o litoral. A cultura material dos mais antigos habitantes do Rio Grande do Sul é marcada por uma indústria lítica de larga escala, na qual se destacam as pontas de projétil. Por volta de 4.000 A.P. começam a ser construídos os sambaquis no litoral norte, destacando-se os instrumentos confeccionados sobre ossos e pedra polida. Em 3.000 A.P., no litoral sul e no sudoeste gaúcho edificam os cerritos, construções arquitetônicas de terra junto às áreas alagadiças. A partir de 2.500 A.P., os habitantes dessa região incorporam a cerâmica aos demais utensílios".

horticultores-ceramistas

"A SEGUNDA ONDA MIGRATÓRIA chega ao estado por volta de 2.000 A.P., representada por grupos falantes das línguas Tupi-Guarani e Macro-Jê, sendo o primeiro oriundo da Amazônia e o segundo do planalto central brasileiro. Esses grupos são caracterizados por maior sedentarismo, vivendo em aldeias fixas, nas quais praticavam a agricultura. Apresentam indícios de constituírem sociedades complexas emergentes. Como inovação tecnológica surge a cerâmica, que é produzida em larga escala, destacando-se as grandes urnas funerárias dos Guarani. Os grupos Jê, por sua vez, destacam-se por sua complexa engenharia de terra com a construção de casas semissubterâneas, montículos funerários e grandes estruturas anelares cerimoniais".

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FONTE/CRÉDITOS:

Título: 12.000 anos de história - Arqueologia e Pré-história do Rio Grande do Sul

Autora: Drª Silvia Moehlecke Copé

Instituição: Museu da UFRGS

Para mais informações sobre o projeto "12.000 anos de história" clique aqui.

LINHA DO TEMPO

COMO OS ARQUEÓLOGOS RESGATAM OS MATERIAIS PRESENTES NOS SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS?

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Em primeiro lugar, é importante saber que a escavação de um sítio arqueológico implica na sua destruição, ou seja, ao escavar um sítio, ele é eliminado do meio-ambiente. Por isso, atualmente a prática mais comum é escavar apenas sítios arqueológicos que possuem alto valor científico ou que correm risco de destruição. Foi isso que aconteceu com os três sítios arqueológicos citados nesse site: Sítio RS-MSG-115, Sítio RS-MSG-116 e Sítio Curral da Figueira. Eles foram escavados porque poderiam ser danificados com a construção de uma linha de transmissão de energia.

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Os arqueólogos iniciam as atividades de campo buscando pistas que possam indicar marcas da presença humana em tempos passados. Para isso, os pesquisadores caminham e observam o local de forma sistemática, fazendo uma varredura em toda a área que está sendo pesquisada, para identificar vestígios arqueológicos e fontes de matérias-primas (rochas de boa qualidade, fontes de água, etc.).

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Depois de observar e analisar atentamente toda a área de pesquisa, os pesquisadores começam a prospectar o subsolo, para verificar a presença de materiais soterrados. Para isso, são feitas perfurações no solo, chamadas de "sondagens". Se houver materiais no subsolo, os pesquisadores continuam realizando novas sondagens para delimitar a área do sítio arqueológico, ou seja, descobrir qual é a extensão do sítio.

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Antes de ser coletado, o material arqueológico que se encontra na superfície do solo é marcado com uma bandeirinha. Essa atividade possui o objetivo de apresentar, de forma visual, a dispersão (a espacialidade) dos vestígios na área estudada.

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Todos os materiais também são mapeados com instrumentos eletrônicos, como aparelho de GPS e "estação total" (uma máquina de topografia, usada para medir distâncias e ângulos). Esses instrumentos registram a posição exata de cada peça do sítio arqueológico, que será importante para que os pesquisadores interpretem as características das antigas ocupações existentes naquele local.

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Antes de iniciar a escavação, a área do sítio é dividida em vários quadrados, como um tabuleiro de xadrez. Depois disso, inicia-se a escavação: os quadrados são escavados cuidadosamente, de dez em dez centímetros.

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Toda terra escavada é peneirada para que se possa resgatar todo tipo de vestígio, mesmo os mais pequenos.

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Com o encerramento dos trabalhos de campo, os materiais arqueológicos são levados ao laboratório, onde são higienizados, catalogados e analisados.

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